O protocolo dos seis controles
Como o motor separa técnica que funciona de ilusão estatística — e o que ele recusa afirmar.
Auditamos a técnica, nunca a pessoa. Um número sem controle não é resultado: é um desenho no gráfico.
O que a bateria fez até agora
Estes números saem do próprio acervo a cada publicação — não são digitados nesta página. 325 alegações distintas, medidas entre 2017 e 2026.
- 6
- aprovadas
- 228
- reprovadas
- 91
- inconclusivas
Uma bateria que aprova quase tudo não está auditando nada. Uma que reprova tudo também não — por isso os aprovados ficam publicados com nome e número.
Antes dos seis: a previsão vem primeiro
Toda auditoria começa com uma hipótese escrita e datada antes de o número existir. Ela é publicada no card, com a data do registro, ao lado do resultado. É o que separa uma auditoria de um backtest: quem escreve a previsão depois de ver o resultado sempre acerta.
1. Invariante — de onde veio o resultado
Antes de olhar o lucro, o motor pergunta se ele é aritmeticamente plausível. O que mais reprova aqui não é bug: é concentração. Se metade do lucro bruto vem de um punhado de operações, o resultado não é uma vantagem — é uma loteria que por acaso pagou dentro da amostra. Ninguém consegue seguir uma técnica assim, porque as poucas operações que pagam tudo são indistinguíveis das outras no momento de entrar.
É o controle que mais reprova no acervo: 90 das 228 técnicas reprovadas morrem aqui, e 90 delas por concentração. O motor também checa impossibilidades diretas — mais operações do que velas, média dominada por um único outlier —, mas nenhuma técnica do acervo reprovou por elas.
2. Custo — o pedágio que a teoria ignora
A taxa da corretora entra nas duas pontas, mais o custo de carregar posição de um dia para o outro. É onde a maioria dos resultados de papel evapora: a vantagem existe, mas é menor que o pedágio para capturá-la.
O custo é também a causa dominante do veredito inconclusivo: em 87 dos 91 casos o motor não conseguiu mostrar que a vantagem sobrevive ao custo — nem que ela morre. Dizer 'não sei' aí é mais honesto que arredondar para qualquer um dos lados.
3. Placebo — a técnica ou a maré?
O motor sorteia milhares de datas falsas e opera nelas, nos mesmos ativos e no mesmo período. Se o sorteio rende o mesmo, o lucro não veio da regra: veio do mercado ter subido (ou descido) para todo mundo.
4. Benchmark — a alternativa preguiçosa
O concorrente de qualquer técnica é não fazer nada: comprar e segurar os mesmos ativos, no mesmo período. Bater zero não é mérito. Uma técnica que exige atenção diária e rende menos que dormir falhou, mesmo dando lucro.
5. Fora da amostra — replica onde não foi ajustada?
A medição é partida em metades que a técnica não escolheu: metade dos ativos contra a outra, os líquidos contra os ilíquidos, e quatro fatias de tempo. Um efeito real aparece nas partições; um efeito ajustado sob medida aparece só onde foi ajustado.
É também aqui que se vê o decaimento: técnicas que funcionavam nas fatias antigas e param nas recentes. O card publica as fatias uma a uma, com o número de episódios de cada — porque uma fatia com seis episódios não sustenta conclusão nenhuma.
6. Múltiplos testes — o preço de tentar muitas vezes
Quem testa cinquenta variações encontra uma que 'funciona' por acaso. O motor aplica a correção de Benjamini-Hochberg sobre o acervo inteiro, não só sobre as variações de uma técnica.
A consequência é incômoda e fica declarada: a barra sobe a cada alegação publicada. Hoje uma técnica em cripto precisa entregar cerca de 4,5% por operação para sobreviver a esta correção. Publicar mais medições encarece afirmar qualquer coisa — inclusive para nós.
O que REPROVADO não quer dizer
REPROVADO não é 'perde dinheiro'. É 'não há efeito acima do que este instrumento consegue detectar' — e esse número é medido e publicado: 0,694% por operação em cripto, 0,092% em forex. Um efeito menor que isso pode existir; nós apenas não conseguimos afirmá-lo, e não afirmamos.
Você pode conferir, e é para isso que existe
O identificador de cada laudo é o hash do próprio conteúdo: qualquer edição posterior à publicação quebra a verificação. Cada card oferece o registro completo para download — os parâmetros, o universo, o período, os seis controles e a hipótese datada. A conferência não depende de acreditar em nós.
Os três vereditos
- APROVADOSobreviveu aos seis. Não é recomendação de investimento nem promessa de lucro: é o registro de que a alegação resistiu à bateria mais hostil que sabemos montar, no período e no universo declarados no card.
- REPROVADOFalhou em pelo menos um controle. O card diz em qual e por quanto. Não significa que a técnica perde dinheiro sempre — significa que, se há vantagem, ela é menor que o piso de detecção declarado.
- INCONCLUSIVOO motor não conseguiu decidir. Quase sempre porque a vantagem e o custo têm tamanhos parecidos, ou porque os episódios independentes são poucos demais. É a resposta que um instrumento honesto dá com mais frequência do que gostaríamos.
Nenhum selo é vitalício
- A régua sobe. Quando descobrimos uma ilusão estatística nova e apertamos um controle, o acervo é reauditado. Técnicas antes aprovadas podem cair — e caem publicamente.
- O mercado muda. Uma técnica que funcionava de 2017 a 2020 pode ter parado. Retestamos com dados novos em ciclos.
- O histórico fica. Um reteste não apaga o resultado anterior: nasce ao lado dele, e o card mostra quando o veredito mudou. Descobrir que uma técnica parou de funcionar é o produto, não um defeito dele.